Rumo ao Sri Lanka: “Desenvolvimento como liberdade”, de Amartya Sen

A riqueza de país nem sempre traz uma vida melhor a seus moradores; uma economia em crescimento pode causar a devastação de uma sociedade inteira.

Em “Desenvolvimento como liberdade”, Amartya Sen diz que em 1994 a expectativa de vida no Brasil era menor do que a expectativa de vida no Sri Lanka, embora o Sri Lanka fosse – e continue a ser – incomparavelmente mais pobre do que o Brasil.

A situação mudou hoje em dia. De acordo com dados que consultei no site do Banco Mundial, viver no Brasil está quase tão bom quanto viver no Sri Lanka atualmente.

O Sri Lanka tem renda per capita de 2 mil dólares, expectativa de vida de 74 anos, saneamento básico em 92% da zona rural, e apenas 8% da população vive abaixo da linha nacional de pobreza.

O Brasil tem renda per capita de 11 mil dólares, expectativa de vida de 72 anos, saneamento básico em 85% da zona rural, e 23% da população vive abaixo da linha nacional de pobreza.

É que o Sri Lanka, embora paupérrimo, investia em saúde pública enquanto o Brasil persistia no descaso. Demorou 18 anos para a economia muito mais rica do Brasil proporcionar aos brasileiros um patamar de vida próximo daquele que a economia muito mais pobre do Sri Lanka proporciona aos cingaleses desde 1994. Nestes 18 anos, com a falência mais ou menos comprovada do “Estado de mal estar social” no Brasil, houve investimento em saúde pública e em educação (ainda ruins, mas melhores do que antes), o que retirou o país da precariedade em que estava.

Essa comparação superficial me faz pensar em quanto o argumento central de Amartya Sen é pertinente. O autor construiu no livro “Desenvolvimento como liberdade” a tese de que índices econômicos sozinhos não medem o desenvolvimento de um país, pois a riqueza pode ser utilizada de um jeito ruim, e a obtenção da riqueza pode custar a devastação da sociedade. Índices econômicos robustos não reverteram em qualidade de vida para os brasileiros, pelo menos não na mesma intensidade que os índices econômicos fracos reverteram em qualidade de vida aos moradores do Sri Lanka.

As ideias de Amartya Sen mudarão sua forma de entender o caderno econômico dos jornais.