Criar a história do futuro

Como planejar uma escola de ensino técnico, graduação e pós-graduação? Eu não tinha a menor ideia, mas aprendi alguma coisa nos últimos dois anos.

Trabalhei na área de desenvolvimento institucional da reitoria de um instituto federal entre 2013 e 2015. Provavelmente compartilho com colegas servidores do país inteiro a situação desafiadora destas organizações de ensino, então usarei esta postagem para falar de uma ideia que pode resolver parte de um grande desafio: o desafio do planejamento.

Os institutos federais foram criados em 2008. Receberam uma denominação longa, “Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia”, tão longa que a primeira sigla, IFET, o Ministério da Educação decidiu reduzi-la para IF por volta de 2012.

Estas novas instituições de ensino se parecem com universidades, mas estão focadas na formação de profissionais – através de cursos técnicos, graduações e programas de pós-graduação – e no desenvolvimento regional – por meio de programas de empreendedorismo, inovação e ciência aplicada.

Quando nos perguntamos sobre como planejar um instituto federal, penso que devemos olhar para dois documentos:

  1. O PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional), requerido pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) para a autorização de oferta de graduações
  2. O relatório de gestão, requerido pelo TCU (Tribunal de Contas da União) para prestação de contas dos entes federais à sociedade

A resposta para o desafio do planejamento dos institutos federais, a meu ver, está em integrar o PDI e os relatórios de gestão como partes de um processo que deve ser complementado por uma documentação de médio prazo, que chamarei de Plano Setorial.

Esta integração de PDIs, Planos Setoriais e relatórios de gestão forma o que chamarei de processo estratégico.

Deveríamos conceber os institutos federais como imersos em um processo estratégico cujos marcos consistem em documentos de planejamento requisitados por diferentes entidades da administração federal, como o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e o TCU, mas que precisam de um elo de ligação – e este último corre por conta dos institutos federais.

Consolidar o processo estratégico

A ligação entre o PDI e o relatório de gestão deve ser operacionalizada através de um Plano Setorial. Juntas, estas documentações funcionarão como marcos de um processo:

1. Planejamento de longo prazo para a totalidade do instituto federal, composto por missão, visão, valores e políticas institucionais, por meio da formalização do Plano de Desenvolvimento Institucional

2. Planejamento de médio e curto prazo para cada setor de atividade do instituto federal, composto por missão, visão, valores, objetivos, indicadores, metas e iniciativas, por meio da formalização de Planos Setoriais

3. Revisão anual dos Planos Setoriais por meio dos relatórios de gestão entregues ao TCU

4. Revisão quinquenal do PDI por meio de consolidação dos relatórios de gestão que tiverem sido entregues ao TCU e análise do desempenho dos Planos Setoriais

A diferença entre o Plano Setorial e o PDI é que o PDI é de longo prazo, cinco anos, enquanto o Plano Setorial comporta duas durações:

  • Médio prazo (dois anos) para missão, visão, valores, objetivos e indicadores
  • Curto prazo (um ano) para metas e iniciativas

Há, ainda, diferenças de abrangência:

  • O PDI deve abarcar a totalidade do instituto federal
  • Cada Plano Setorial deve restringir-se a um setor de atividade do instituto federal (por exemplo, o Plano Setorial dos cursos técnicos de nível médio, o Plano Setorial da tecnologia da informação e comunicação, o Plano Setorial da administração de orçamento e finanças)

O relatório de gestão que os institutos federais entregam anualmente ao TCU (Tribunal de Contas da União), nesta ótica, passará a ocupar a posição de instrumento de medida do desempenho previsto nos Planos Setoriais e fonte primária para a revisão do PDI.

Há, portanto, na documentação entregue ao TCU e ao INEP, uma lógica de direcionamento e controle que os institutos federais podem explorar a seu favor.
Segundo esta ideia, os institutos federais se perceberiam cada um dentro de um processo estratégico que integra o PDI ao relatório de gestão por meio de um Plano Setorial.

Onde tudo se conecta

Se um instituto federal quer atingir um objetivo de longo prazo, ele precisa que seus funcionários e professores, também seus alunos, assumam determinadas atitudes no cotidiano, por cinco anos seguidos. Para isto, precisa conectar o cotiano deles, no curto prazo, com os rumos de longo prazo que escolheu.

Acredito que estabelecer a conexão entre o PDI para o INEP e os relatórios de gestão para o TCU através dos Planos Setoriais seja o primeiro passo neste sentido.

O processo estratégico existe para enxergarmos que o número de inscritos em um edital é um pequeno sucesso de uma grande realização de longo prazo. Sem estratégia, continuaremos a andar de olhos vendados.