Ética em tempos de carne fraca: o que é ética corporativa?

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A ética corporativa chegou para ficar. No Brasil, é um tema novo, fortemente associado aos escândalos de corrupção da Operação Lava-Jato e, recentemente, da Operação Carne Fraca.

Enquanto a primeira operação tem revelado indícios de desvios na relação entre empresários e autoridades públicas, a segunda operação tem revelado indícios da resistência dos frigoríficos em seguir a legislação sanitária.

Nesse cenário de escândalos, a ética corporativa frequenta o noticiário como se fosse um sinônimo de combate à corrupção.

Todavia, embora a ética corporativa certamente combata a corrupção, ela não se limita a isso. Se for enquadrada dentro desse limite, aliás, talvez nem chegue a contribuir com a redução dos níveis de corrupção que as operações da Polícia Federal sugerem existir.

Acredito que, para uma boa compreensão e utilização, a ética corporativa deve ser conectada à estratégia organizacional e ao gerenciamento de pessoas.

A estratégia é o padrão que uma organização prevê para a interação de seus recursos com o ambiente externo.

Contam como recursos da organização as suas competências, o seu patrimônio, seus produtos, e todo o mais que determine sua capacidade de atuação no ambiente externo. Este último engloba tudo quanto fica fora da organização, e é composto por aspectos regulatórios, econômicos, políticos e sociais.

Com o passar do tempo, organizações do mundo todo perceberam que o sucesso de suas estratégias dependia, de um lado, de uma análise eficaz do ambiente externo, e, de outro, da atuação alinhada de seus colaboradores.

Uma estratégia incongruente com o ambiente externo carrega em si o germe do fracasso.

Por exemplo: se uma empresa espera dominar o mercado de carnes por meio da fraude da qualidade da carne que anuncia aos consumidores, mais cedo ou mais tarde a legislação sanitária (o aspecto regulatório do ambiente externo) provocará o fracasso da estratégia.

Essa constatação incentivou o investimento das empresas em análises de mercado: o foco era alinhar a estratégia da organização com seu ambiente externo.

Todavia, mesmo com uma estratégia sólida, uma organização pode fracassar se seus colaboradores atuarem em desalinho. Se aquela empresa do exemplo anterior possui uma política de combate à fraude da qualidade da carne, mas seus colaboradores permitem ou até incentivam fraudes, mais cedo ou mais tarde o atrito com a legislação sanitária poderá provocar algum grau de fracasso.

Essa segunda constatação incentivou as organizações a lançar mão da ética como principal auxiliar do alinhamento entre estratégias e gerenciamento de pessoas.

Uma organização ética é aquela que consegue alinhar “o que” ela espera de seus colaboradores com “o como” ela trata seus colaboradores.

Se uma empresa espera que seus colaboradores respeitem as regras sanitárias, ela precisa tratá-los de modo condizente.

Se a empresa promove aqueles que burlam as regras, a fraude se torna hábito, e ocorre o desalinhamento entre uma estratégia de respeito às regras sanitárias e um cotidiano de burla a essas mesmas regras.

A própria estratégia organizacional converte-se em uma ilusão.

Portanto, para medir a ética em uma organização, a pergunta essencial não é se ela cumpre a legislação do país em que atua; a pergunta essencial é se ela trata seus colaboradores de forma coerente com uma estratégia organizacional que foi concebida em alinhamento com o ambiente externo.

A ética tem se mostrado um forte auxiliar nesta tarefa porque ela cria capital social no interior da organização, e isso facilita o adimplemento de regras.

O capital social pode ser definido como aquilo que impulsiona o trabalho cooperativo de diversas pessoas rumo a um propósito comum.

Quanto mais capital social dentro de uma organização, menos preocupação ela tem com a correção de desvios.

Em uma organização com alto capital social, o comportamento dos colaboradores tende a ocorrer de acordo com as regras devido à pressão exercida no interior da organização.

Retomando, por uma última vez, o exemplo da empresa de carnes: se nela o respeito às regras sanitárias é praticado de alto a baixo e claramente favorecido no gerenciamento de pessoas, raramente seus regulamentos precisarão entrar em cena para coibir comportamentos condescendentes com a fraude e, com maior raridade ainda, a legislação sanitária precisará entrar em ação para pedir o equilíbrio das operações da organização com as expectativas da sociedade.

A pressão organizacional terá sido suficiente para coibir a maioria das intenções que, postas em prática, teriam originado fraudes.

Imagem por Juntin Luebke, do Unsplash.