O elogio do ócio, de Bertrand Russell

Minha tradução de “In praise of iddleness”, ensaio escrito em 1932 defendendo jornadas de menos de 4 horas diárias de trabalho.


Tal como a maioria de meus contemporâneos, cresci ouvindo dizer que “mente vazia é oficina do diabo”. Criança virtuosa, acreditava em tudo o que me contavam, por isso adquiri uma consciência que me manteve trabalhando duro até hoje. Embora minha consciência tenha controlado minhas ações, ela não impediu que minhas opiniões passassem por uma revolução.

Acredito que todos trabalhamos demais hoje em dia, que a crença na virtude do trabalho causa um dano imenso e que é preciso ensinar algo bem diference do que se costuma ensinar nos modernos países industriais.

Todos conhecemos a história do turista que encontrou em Nápoles doze mendigos estirados ao sol (foi antes dos dias de Mussolini) e ofereceu uma lira ao mais preguiço. Onze saltaram para reivindicar a moeda. Então, o turista entregou o dinheiro para o décimo segundo.

A escolha daquele turista não poderia ter sido mais correta. Contudo, em países que não desfrutam do clima mediterrâneo, a ociosidade enfrenta tantas barreiras que sua inauguração demandará muita propaganda. Espero que, após ler as páginas seguintes, os líderes da mocidade cristã comecem uma campanha para induzir nossa juventude sadia a não fazer nada. Se isso acontecer, não terei vivido em vão.

Antes de apresentar meus argumentos em favor da preguiça, preciso combater uma ideia da qual discordo.

Quando uma pessoa que já tem o suficiente para viver decide procurar um trabalho cotidiano, talvez lecionar ou datilografar, classificam sua conduta como perniciosa porque, dizem, tomará o pão da boca de outras pessoas. Se esse argumento fosse válido, bastaria que todos fôssemos ociosos para que todos tivéssemos as bocas cheias de pão. Os defensores dessa ideia se esquecem de que uma pessoa gera empregos quando gasta o salário. Tão logo gasta o salário, uma pessoa coloca tanto pão na boca de outras pessoas quanto retirou ganhando o salário. O verdadeiro vilão, no meu ponto de vista, é quem economiza. Se simplesmente enfiar o dinheiro em uma meia, como era hábito do folclórico camponês da França, é claro que não gerará empregos. Se investir as economias, o assunto ficará menos óbvio e diferentes casos emergirão.

Uma das destinações mais comuns das economias consiste em emprestá-las ao governo. Considerando que o grosso do investimento público da maioria dos governos civilizados se destina a custear guerras passadas ou preparar guerras futuras, quem empresta dinheiro ao governo ocupa a mesma posição do vilão shakespeareano que contrata assassinos. O saldo líquido dos hábitos financeiros desse tipo de gente se resume a aumentar as forças armadas daquele governo para o qual empresta dinheiro. Obviamente, melhor que gastasse o dinheiro, mesmo que em bebida ou jogo de azar.

Contudo, dizem certos indivíduos, o caso muda totalmente se o poupador investe em empreendimentos industriais. Quando tais empreendimentos obtêm sucesso e produzem algo útil, o argumento pode ser aceito. Hoje em dia, entretanto, ninguém nega que a maioria dos empreendimentos fracassam, o que significa que uma enorme quantidade de trabalho humano, ao invés de ter sido devotado a produzir algo que alguém pudesse usufruir, tende a ser gasto em maquinários e obras que, depois de prontos, ficam parados sem trazer bem algum para ninguém.

Quem investe em um negócio que vai à falência traz prejuízos contra si e contra os outros. Se, em contrapartida, torrasse o dinheiro em festas, seus amigos —  assim esperamos, pelo menos  — teriam prazer, assim como teriam prazer todos com os quais o dinheiro teria sido gasto, como o açougueiro, o padeiro e o vendedor de bebidas. Quem financia a construção de trilhos de bondes os quais depois se mostram inúteis, desperdiça uma montanha de trabalho em coisas que não dão prazer para ninguém. Todavia, quando essa pessoa fica pobre devido ao fracasso do investimento, ela é vista como vítima de um destino imerecido, enquanto que o dilapidador feliz, após gastar todo o dinheiro em filantropia, é desprezado como um tolo e frívolo.

Tudo isso até agora foi apenas preliminar ao que afirmo com toda seriedade: a crença na virtude do trabalho causa muito mal no mundo moderno. O caminho para a alegria e para a prosperidade está em uma organizada diminuição do trabalho.


Primeiro de tudo: o que é trabalho?

O trabalho pode ser de dois tipos: primeiro, mudar a posição de um objeto relativamente a outro objeto; segundo, mandar alguém fazer isso. O primeiro tipo é desprazeroso e mal pago; o segundo é prazeroso e bem remunerado. O segundo tipo é capaz de ser estendido infinitamente: existem não apenas aqueles que dão ordens, mas aqueles que dão conselhos sobre quais ordens devem ser dadas. Geralmente, dois conselhos opostos são dados simultaneamente por dois grupos: isso se chama política. A habilidade necessária a trabalhos desse tipo não é conhecimento a respeito dos assuntos sobre os quais se aconselha, mas conhecimento da arte de falar e escrever com persuasão, ou seja, propaganda.

Em toda a Europa, mas não na América, há uma terceira classe de homens, mais respeitada do que qualquer uma das classes trabalhadoras. São homens que, devido à propriedade de terras, cobram privilégios para permitir que outros vivam e trabalhem. Esses proprietários de terras são ociosos e talvez se espere que eu os parabenize. Infelizmente, a ociosidade deles é possibilitada apenas pela industriosidade de outros; na verdade, o desejo que eles têm de ociosidade é historicamente a fonte de todo o evangelho do trabalho. Eles odiariam ver outras classes copiando o modo de vida deles.

Desde o início da civilização até a Revolução Industrial, um homem podia, como regra, produzir através de trabalho duro apenas um pouco mais do que ele precisava para garantir a própria sobrevivência e de sua família, embora sua esposa trabalhasse tão duro quanto ele e seus filhos começassem a trabalhar tão logo a idade permitisse. O pouco que produziam além das necessidades mínimas não ficava com eles, pois ia parar nas mãos de guerreiros e padres. Nos tempos de fome não havia sobra; os guerreiros e os padres, contudo, ainda pegavam o mesmo que nos outros tempos, daí resultava muitos trabalhadores morrerem de fome.

Esse sistema permaneceu na Rússia até 1917 (a partir de então, os membros do Partido Comunista herdaram o privilégio de guerreiros e padres) e ainda persiste na Ásia; na Inglaterra, apesar da Revolução Industrial, esse sistema permaneceu com força total durante as guerras napoleônicas, ainda se mantendo em voga cerca de cem anos atrás, quando uma nova classe de manufatureiros tomou o poder. Na América, o sistema chegou ao fim com a Revolução de Independência, exceto no sul, onde persistiu até a Guerra Civil.

Naturalmente, um sistema de tão longa duração e de tão recende fim deixou uma impressão profunda nos pensamentos e nas opiniões. Muito do que tomamos por garantido sobre a desejabilidade do trabalho deriva desse sistema pré-industrial que o mundo moderno rejeita. A técnica moderna permite que o lazer, dentro de certos limites, não precise ser uma prerrogativa de pequenas classes de privilegiados, podendo ser um direito proporcionalmente distribuído à comunidade. A moralidade do trabalho é a moralidade dos escravos, e o mundo moderno não precisa de escravos.

Obviamente, em comunidades primitivas, os camponeses, se deixados à própria sorte, não teriam repartido voluntariamente a mais ínfima porção da sobra que os guerreiros e os padres tomavam deles. Os camponeses teriam ou produzido menos, ou consumido mais. Num primeiro momento, a força das circunstâncias forçou os camponeses a produzir e repartir a sobra. Gradualmente, entretanto, foi descoberto que era possível induzir muitos dentre eles a aceitar uma ética de acordo com a qual tinham o dever de trabalhar duro, embora parte do trabalho deles sustentasse a ociosidade dos outros. Dessa forma, os controles sociais poderiam diminuir, assim como os gastos do governo. Atualmente, 99% dos assalariados britânicos ficariam genuinamente chocados se alguém propusesse igualar o rendimento do Rei ao de um trabalhador qualquer. O conceito de dever, falando historicamente, tem sido um instrumento para induzir os vassalos a viver conforme os interesses de seus senhores e não conforme seus próprios interesses. Claro que os poderosos escondem esse fato deles mesmos quando arranjam um jeito de acreditar que seus interesses refletem os anseios mais amplos da humanidade. Às vezes isso é verdade; os donos de escravos na Atenas da Grécia Antiga, por exemplo, empregaram parte de seu tempo livre para entregar à civilização um conjunto de contribuições inconcebível em um regime econômico justo. O lazer é essencial à civilização e em tempos passados o lazer para alguns poucos privilegiados era possibilitado apenas pelo trabalho da maioria. Todavia, o trabalho era valorizado não porque fosse bom em si, mas porque o lazer era considerado bom. E a técnica moderna possibilita distribuir lazer com igualdade sem ocasionar prejuízo algum à civilização.

A técnica moderna permitiu diminuir enormemente a quantidade de trabalho requerida para assegurar o necessário à vida de todos.
Isso ficou evidente durante a guerra. Naquele momento, todos os homens das forças armadas, todos os homens e todas as mulheres ocupados em produzir munição, todos os que espionavam ou faziam propaganda de guerra e todos os oficiais de Governo conectados com a guerra — todos foram retirados das ocupações produtivas. Mesmo assim, nos países aliados, a qualidade de vida dos assalariados sem instrução atingiu um patamar superior do que antes da guerra ou depois dela. O significado desse fato foi ocultado pelas finanças: os empréstimos fizeram parecer que o futuro estava alimentando o presente. Tal fato era logicamente impossível: um homem não pode comer um pão que ainda não existe. A guerra mostrou de uma vez por todas que, por meio da organização científica da produção, as populações modernas podem manter boas condições de conforto se usarem uma pequena parte da capacidade de trabalho do mundo moderno. Se, no final da guerra, a organização científica, que fora criada com o intuito de liberar homens e mulheres para tarefas de guerra e produção de munição, tivesse sido preservada, e se as horas de trabalho semanais tivessem sido cortadas para quatro, tudo teria permanecido bem. Contudo, ao invés disso, restaurou-se o velho caos: aqueles que trabalhavam eram demandados a trabalhar por longas horas e o restante ficava à míngua sem ter um emprego. Por quê? Porque trabalhar é um dever e um homem não recebe salários em proporção ao que ele produz, mas em proporção à virtude que exemplifica através de sua industriosidade.

Essa é a moralidade do Estado Escravista aplicada a circunstâncias totalmente incompatíveis com aquelas que lhe proporcionaram a ascensão. Não surpreende o resultado desastroso. Vamos pegar um exemplo. Suponha que, em um dado momento, certo número de homens se ocupe na produção de alfinetes. Eles produzem tantos alfinetes quantos o mundo precisa, digamos que trabalhando oito horas por dia. Alguém inventa um mecanismo e o mesmo número de trabalhadores passa a produzir o dobro de alfinetes durante a mesma jornada de oito horas: alfinetes já custam tão pouco, dificilmente alguém compará alguns a mais só porque custam menos ainda. Em um mundo racional, todos que se ocupam da produção de alfinetes começariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito horas e tudo prosseguiria como antes. Mas no mundo de verdade isso seria desmoralizador. Os homens ainda trabalharão oito horas, produzirão alfinetes demais, alguns empregadores quebrarão e a metade dos homens antes ocupados em fabricar alfinetes estará desempregada. No final, haverá tanto tempo livre quanto antes das demissões, porém agora metade dos homens estará totalmente à toa enquanto a outra metade estará trabalhando em excesso. Essa forma de pensar apenas assegura que o lazer de todos  —  consequência inevitável do avanço técnico – funcione como causa da miséria ao invés de funcionar como fonte universal da felicidade. Alguém imaginaria algo mais insano?

A ideia de que os pobres devem ter lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra, na metade do século XIX, um adulto tinha uma jornada diária de quinze horas; algumas crianças trabalhavam mais do que isso, outras se ocupavam doze horas por dia. Quando um futriqueiro sugeriu que essa situação parecia demasiada, explicaram-lhe que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças, longe das travessuras. Quando eu era menino, pouco após os trabalhadores urbanos adquirirem o direito ao voto, a lei fixou alguns feriados públicos, o que despertou a indignação das classes altas. Lembro-me de uma velha duquesa dizer: “O que os pobres farão no feriado? Eles deveriam trabalhar.” As pessoas de hoje perderam toda essa sinceridade, mas o sentimento persiste, e é a fonte maior da nossa confusão econômica.

Eu sugiro que, por um momento, deixemos de lado toda essa superstição e consideremos a ética do trabalho com sinceridade. Todo ser humano, por necessidade, consome, no curso de uma vida, uma quantidade delimitada do produto do trabalho humano. Assumindo que o trabalho é em seu todo desagradável, é injusto consumir mais do que se produz. Claro que alguém pode prestar serviços ao invés de gerar produtos, como um médico, por exemplo; mas deve prover algo em troca de seu alojamento e de sua alimentação; com esse fim, o dever do trabalho merece existir, mas apenas com esse fim e até esse ponto.

Não me ocuparei do fato de que, em todas as sociedades modernas, exceto na URSS, muitas pessoas escapam até mesmo de um mínimo de trabalho, nomeadamente aqueles que herdam dinheiro e todos os que se casam por dinheiro. Não acho que o fato de permitir o ócio dessas pessoas provoque tantos malefícios quanto o fato de obrigar os assalariados a optar entre trabalhar demais ou passar fome.

Se o assalariado trabalhasse em média quatro horas, haveria o suficiente para todos e não haveria desemprego — assumindo um nível moderado de organização sensata. Essa ideia choca os ricos, pois eles estão convencidos de que o pobre não saberia usar o tempo de lazer.

Na América, mesmo os homens ricos trabalham longas horas; naturalmente, eles ficam indignados com a ideia de lazer para os assalariados, exceto quando o lazer vem na forma da dura punição do desemprego. De fato, detestam o lazer até mesmo dos próprios filhos. É esquisito: ao mesmo tempo em que obrigam os filhos a trabalhar tanto que sequer acham tempo para obter uma educação civilizada, não ligam que suas esposas e suas filhas não trabalhem de modo algum. A esnobe admiração do inútil, que, numa sociedade aristocrática, estende-se a ambos os sexos, fica confinada às mulheres em uma plutocracia. Tal fato, entretanto, não a faz nenhum pouco mais em acordo com o senso comum.

A sabedoria de como usar o tempo livre, devemos reconhecer, é um produto da civilização e da educação. Um homem que trabalhou em excesso a vida inteira se sentirá entediado se subitamente deixar de ter o que fazer. Por outro lado, desprovido de uma considerável quantidade de lazer, um homem perde as melhores coisas da vida. Não há mais razão para que a maioria da população sofra essa privação; apenas um ascetismo tolo, geralmente vicário, obriga-nos a continuar a trabalhar em quantidades excessivas mesmo em uma época em que isso se tornou desnecessário.

No novo credo que controla o governo da Rússia, o comunismo instaurado pela Revolução de 1917, embora haja muitas diferenças com relação às práticas ocidentais, há também muitas similaridades. A respeito da dignidade do trabalho, a atitude das classes governantes, especialmente daquelas incumbidas da propaganda educacional, imita quase totalmente a atitude que as classes governantes do mundo sempre aconselharam para aquele que alcunhavam de “pobre honesto”. Industriosidade, sobriedade, disposição para trabalhar longas horas na expectativa de recompensas futuras, até mesmo submissão à autoridade, todos esses elementos reaparecem; além do mais, a autoridade ainda representa a vontade do Legislador do Universo, porém Ele agora recebe um novo nome: Materialismo Dialético.

A vitória do proletariado na Rússia tem pontos em comum com a vitória das feministas em certos países. Durante eras, os homens concederam uma pureza superior às mulheres e consoloram a inferioridade que lhes atribuíam dizendo que a pureza era mais desejável do que o poder. No fim, as feministas decidiram que teriam o poder e a pureza, pois as pioneiras dentre elas acreditavam em tudo o que os homens tinham dito sobre a desejabilidade da virtude, mas não acreditavam no que tinham dito sobre a falta de valor do poder político. Algo similar aconteceu na Rússia com relação ao trabalho manual. Durante eras, os ricos e seus sicofantas louvaram o trabalho honesto, a vida frugal, professaram a religião segundo a qual o pobre muito mais provavelmente subirá ao paraíso celeste do que o rico, e, em geral, tentaram fazer com que os trabalhadores manuais acreditassem que havia algo especialmente nobre em alterar a posição da matéria no espaço, tal como os homens fizeram as mulheres acreditar que a escravidão sexual detinha uma nobreza singular. Na Rússia, toda a escola da nobreza do trabalho manual foi levada a sério. Como consequência, o trabalhador manual é mais enobrecido do que qualquer outro. Em essência, os apelos do evangelho do trabalho são feitos com objetivos diferentes daqueles de antigamente: eles agora visam assegurar um estoque de trabalhadores para tarefas especiais. O trabalho manual é erguido como um ideal para a juventude e constitui a base para o ensino da ética.

No presente, possivelmente, isso é para o bem. Um país grande, cheio de recursos naturais, aguarda desenvolvimento e precisará ser desenvolvido com pequeno recurso a empréstimos. Nessas circunstâncias, trabalho duro é necessário e pode trazer grandes recompensas. Mas o que acontecerá quando for atingido o ponto em que todos poderão estar confortáveis sem longas horas de trabalho?

No Ocidente, temos diversas maneiras de lidar com esse problema. Não temos nenhuma preocupação com justiça econômica, então direcionamos uma quantidade enorme da produção total para uma minoria da população, boa parte da qual não trabalha de jeito algum. Devido à ausência de um controle centralizado da produção, produzimos toneladas de coisas que não queremos. Mantemos uma larga fatia da população sem ter o que fazer, uma vez que podemos dispensar o trabalho dessa população e obrigar outros a trabalhar em excesso. Quando todos esses métodos se mostram inadequados, iniciamos uma guerra: colocamos uma multidão para fabricar explosivos, outra multidão para explodi-los, como se fôssemos crianças descobrindo os fogos de artifício. Combinamos esses métodos e administramos, embora com dificuldade, a sobrevivência do ideal de que o cidadão médio está fadado a completar a maior parte do trabalho manual desgastante.

Na Rússia, devido à maior justiça econômica e ao controle centralizado da produção, o problema exigirá soluções diferentes. A solução racional consistiria em, tão logo supridas as necessidades e os confortos elementares para todos, reduzir as horas de trabalho gradualmente, permitindo que o voto popular decida, em cada estágio, se mais lazer ou mais produtos deverão ser preferidos. Mas, havendo ensinado a virtude suprema do trabalho árduo, dificilmente se prevê como as autoridades poderão oferecer um paraíso com mais lazer e menos trabalho. Parece mais plausível que as autoridades continuamente encontrarão novos estratagemas para justificar o sacrifício do lazer possível no presente em nome de uma futura produtividade. Segundo li recentemente, um engenhoso plano tocado por engenheiros russos pretende esquentar o Mar Branco e o litoral norte da Sibéria por meio da construção de uma barragem no Mar de Kara. Um projeto admirável, capaz de postergar o conforto do proletariado por uma geração, e servir de vitrine para a nobreza do trabalho árduo nas geleiras e nas nevascas do Oceano Ártico. Esse tipo de projeto, se acontecer, virá como resultado de olhar a virtude do trabalho duro como um fim em si mesmo, ao invés de um meio de chegar a um estado de coisas em que o trabalho duro se torna desnecessário.

Mover coisas de um lugar para outro, embora necessário até certo ponto, definitivamente não constitui uma das finalidades da vida humana. Se esse fosse o caso, consideraríamos todo estivador superior a Shakespeare. Fomos ludibriados nesse assunto por duas causas. Em primeiro lugar, a necessidade de manter os pobres conformados levou os ricos, por milhares de anos, a enaltecer a dignidade do trabalho, enquanto tomavam todo o cuidado para permanecerem indignos nesse terreno. Em segundo lugar, o novo prazer do mecanismo, o deleite em observar com surpresa as modificações que uma máquina consegue efetivar na superfície da terra.

Nenhum dos dois motivos exerce grande atração sobre o trabalhador de verdade. Se você perguntar-lhe o que ele identifica como a melhor parte da vida, ele dificilmente responderá:

“Eu gosto de trabalho manual porque sinto que contribuo para o Homem realizar sua mais nobre missão e porque gosto de pensar o quanto o Homem pode transformar este planeta. É verdade que meu corpo demanda períodos de descanso, os quais preciso suprir da melhor forma que posso, mas jamais me sinto mais feliz do que, logo de manhã bem cedo, retomo a labuta que me enche de contentamento”.


Nunca ouvi um trabalhador falar algo similar a essas palavras. Qualquer trabalhador considera o trabalho, tal como deve aliás ser considerado por todos, um meio necessário à subsistência. Qualquer felicidade de que possa desfrutar, o trabalhador a constrói nas horas de lazer.

Irão dizer-me, todavia:

“Embora um pouco de lazer seja bom, as pessoas não saberiam aproveitar o dia se trabalhassem apenas quatro das vinte quatro horas”.

Mesmo que isso seja verdade, e apenas até certo ponto, no mundo moderno, trata-se de uma condenação exclusiva de nossa civilização; não era verdade em épocas anteriores. Havia antigamente uma disposição para o entretenimento e a brincadeira que foi bastante inibida pelo culto da eficiência. A pessoa moderna acredita que tudo deve ser feito para conseguir outra coisa e nunca como um fim em si mesmo. Pessoas sérias, por exemplo, continuamente condenam o hábito de ir ao cinema e afirmam que isso leva os jovens ao crime, muito embora achem respeitável todo o trabalho requerido para construir um cinema, porque se trata trabalho, e porque traz lucro financeiro.

A noção de que atividades desejáveis são aquelas que trazem lucro deixou tudo confuso. O açougueiro, que corta a carne que você come, e o padeiro, que fabrica o pão, são louváveis porque ganham dinheiro; mas quando você desfruta da comida fabricada por eles, taxam você de frívolo, exceto se comer para ter energia com que trabalhar. Falando genericamente, assume-se que ganhar dinheiro é bom e gastar dinheiro é ruim. Levando em conta que são dois lados de uma mesma transação, a ideia é um absurdo, equivalendo a sustentar a bondade das chaves contra a maldade das fechaduras. O indivíduo, em nossa sociedade, trabalha por dinheiro; mas o objetivo social do trabalho está no consumo da produção. Em um mundo em que a geração de lucro serve de incentivo à industriosidade, esse divórcio entre o objetivo social e o objetivo individual da produção dificulta manter o discernimento. Pensamos demais na produção e quase nunca no consumo. Como resultado, ligamos pouca importância ao deleite e à alegria simples, e não julgamos a produção pelo prazer proporcionado ao consumidor.

Quando sugiro reduzir a jornada diária de trabalho para quatro horas, não defendo preencher todo o tempo restante com tolices. Defendo, isso sim, que quatro horas de trabalho diário deveriam prover uma pessoa de necessidades e confortos elementares e que o resto do tempo ela poderia usar como quisesse. É uma verdade para qualquer sistema social que a educação deveria continuar por tempo além do costumeiro e deveria ensinar, entre outras coisas, como usar o tempo livre de forma inteligente.

Também não penso principalmente em atividades sérias. As danças camponesas se extinguiram por quase toda parte, exceto pelas mais remotas zonas rurais, mas a natureza humana provavelmente ainda abriga os impulsos que as motivaram. Os prazeres da população urbana tornaram-se em sua maioria passivos: ver filmes, ver partidas de futebol, ouvir rádio e por aí vai. A passividade é consequência de uma jornada de trabalho que absorve totalmente as energias ativas das pessoas; se tivessem mais tempo livre, as pessoas poderiam novamente desfrutar de prazeres nos quais desempenham um papel ativo.

No passado, havia uma pequena classe ociosa e uma grande classe trabalhadora. A classe ociosa desfrutava de vantagens sem se preocupar por um segundo com justiça social; essa situação tornou a classe ociosa em classe opressora, antipática, com incentivos para inventar teorias que justificavam seus privilégios. Isso tudo reduziu drasticamente sua excelência, mas, apesar dessas distorções, a classe ociosa gerou metade de tudo o que chamamos de civilização. A classe ociosa cultivou as artes e descobriu as ciências; escreveu os livros, inventou as filosofias e refinou as relações sociais. Membros da classe ociosa chegaram mesmo a inaugurar a libertação das classes oprimidas. Sem a classe ociosa, a humanidade jamais teria emergido da barbárie.

Os métodos de uma classe ociosa desprovida de deveres provocavam, entretanto, um extraordinário desperdício. Nenhum dos seus membros aprendeu a ser industrioso e a classe como um todo não possuía uma inteligência excepcional. Embora pudesse produzir um Darwin, gerava em contrapartida centenas de cavalheiros provincianos que não concebiam nada mais inteligente do que se reservar o direito exclusivo de caçar raposas e punir os que as caçavam ilegalmente. Hoje em dia, espera-se que as universidades provejam, de uma forma mais sistemática, o que a classe ociosa providenciava acidentalmente e como resíduo. É uma melhora espantosa, mas tem suas limitações.

A vida universitária se aparta tanto da vida no mundo em geral que os acadêmicos tendem a passar ao largo das preocupações e dos problemas dos homens e das mulheres comuns; além disso, escolhem formas de expressão que bloqueiam o mínimo de influência que suas ideias deveriam exercer sobre o público em geral. Outra desvantagem é que as universidades organizam os estudos em disciplinas e quem concebe uma linha original de pesquisa tende a sofrer com desencorajamentos. As instituições acadêmicas, portanto, úteis como possam ser, não são guardiãs adequadas dos interesses da civilização em um mundo onde todos fora de suas paredes vivem tão ocupados que não podem perder um segundo com investigações inúteis.

Em um mundo que não obrigasse ninguém a trabalhar mais do que quatro horas diárias, toda pessoa com curiosidade científica estaria livre para saciá-la, e todo pintor poderia pintar sem medo de passar fome, não importando a qualidade de suas telas. Jovens escritores não se veriam forçados a chamar a atenção escrevendo best-sellers escandalosos com a expectativa de conquistar a independência econômica necessária a trabalhos monumentais, para os quais, aliás, quando a hora finalmente chegar, eles podem ter perdido o gosto e a capacidade. Se alguém, em seu trabalho cotidiano, se interessasse por alguma área da economia ou do governo, poderia desenvolver suas ideias sem o distanciamento acadêmico que frequentemente torna inverossímeis os trabalhos dos economistas universitários. Os médicos teriam tempo de aprender sobre os progressos da medicina, os professores não se desesperariam lutando para ensinar, através de métodos rotineiros, assuntos que eles aprenderam na juventude, e que podem, nesse intervalo, ter sido demonstrados como falsos.

Acima de tudo, haveria felicidade e regozijo na vida, em lugar de nervos aos frangalhos, exaustão e gastrite. O trabalho desempenhado bastaria para proporcionar um lazer agradável, sem provocar exaustão. Desde que não estivessem cansadas demais, as pessoas não ocupariam o tempo livre com entretenimentos passivos e estúpidos. Pelo menos um por cento devotaria o tempo livre a assuntos de alguma importância, e, desde que não dependesse desses afazeres para sobreviver, nada bloquearia sua originalidade, pois não haveria razão para conformar-se aos padrões de acadêmicos arcaicos.

Não somente em casos excepcionais as vantagens do lazer se manifestariam. Homens e mulheres comuns, diante da oportunidade de uma vida feliz, seriam mais bondosos e menos agressivos, menos inclinados a suspeitar da vizinhança. O gosto pela guerra desvaneceria, em parte pela maior bondade das pessoas, em parte porque uma guerra demanda trabalho longo e árduo de todos.

A generosidade é, de todas as qualidades morais, aquela de que o mundo mais precisa, e resulta de conforto e segurança, não de uma vida de luta aguerrida.

Os métodos modernos de produção deram-nos a possibilidade de distribuir conforto e segurança para todos; escolhemos, ao invés disso, que uns trabalhem demais enquanto outros morrem de fome por falta de trabalho. Até agora, continuamos a queimar tanta energia trabalhando quanto era regra antes da invenção das máquinas; nisso somos tolos, mas não há razão para sermos tolos para sempre.

Outra ideia: “Entre duas ruínas”.

Crédito das imagens: (1) Photo by Talles Alves on Unsplash (2) Photo by Nathan McBride on Unsplash